Monday, August 6, 2012

Como distinguir as coisas que sim das coisas que não

Escrito no Projecto Pedras 2012 - pessoas e lugares - 03/05/2012

Esta pergunta assoma regularmente ao que faço, ao que considero e escolho com base nesta consideração. O desafio desta pergunta entendo-o no lugar que ela se faz entender em mim, na parte especializada em perceber porque é que sim e porque é que não. O lugar que sabe mesmo, que sabe que não sabe em primeiro lugar – e não o lugar onde sempre soube tudo e já sei qual a decisão acertada. Este lugar eu já conheço bem – usei-o para fazer testes na escola, para responder às pessoas com base no conhecimentos que represento ou quando preciso de resolver um assunto. Ao contrário,o lugar que sabe que não sabe é descarado, bruto, vê o que vê e não o que julga que está a ver… por isso ri-se e aponta com a falta de cuidado de quem não tem susceptibilidades a ferir ou evitar aleijar…
Como é que se sabe quais são as coisas que sim e as coisas que não? Acho que pela mesma maneira que se sabe quando se quer estar num lugar e noutro não, ao pé de uma pessoa e não ao pé de outra, trabalhando uma matéria e não outra. A garantia que se sabe, é que não se sabe porquê… os olhos que vêem o que estão a ver não são fisicamente os mesmos que sabem justificar o que vêem… o cérebro que pensa o que está a pensar não é fisicamente o mesmo que sabe justificar o que pensa. – Não estou a falar de intuição… estou a falar de um lugar que tem uma testemunha que estando lá nunca vai dizer o que vê, não pela ausência de possibilidade de o fazer, mas porque essa é a sua qualidade de testemunha.
Quando sei porque é que faço as coisas, sei que perco o descaramento de as fazer realmente. Perco a confiança de apontar o que precisa ser feito. Quando sei porque faço o que faço, sei (nesse outro lugar que sabe que não sabe) que não faço. Por isso confio na efectividade da acção. Quando me encontro na turbulência da acção evidenciam-se as coisas que sim e as outras que não. Então posso fazer a escolha das coisas que sim, e não podendo justificar o que faço, (os braços que fazem não são fisicamente os mesmos braços que sabem o que fazem) posso pertinentemente fazê-lo.
O lugar que distingue as coisas que sim das coisas que não, é o lugar onde posso.

Obrigada...

Escrito no projecto Pedras 2012 - Pessoas e Lugares - 21/abr/2012

Tenho notado que me encontro com alguma frequência na situação de estar agradecida… por nada muitas vezes que possa dizer realmente “obrigada por esta situação, ou por me estar a acontecer isto ou aquilo”, é mais um agradecimento pelo sabor do momento… porque pude desfrutar do momento no momento, e então agradeço no momento pelo momento que percebo momento… nem por ser bom nem por ter alguma qualidade notável… há alguns anos que me percebo que venho fazendo isto… reconheci como um sinal de estar conectada com o mundo, de priorizar outras coisas para além da alegria e da dor, da necessidade ou da satisfação… mas então aconteceu algo brutal que mudou a minha vida para sempre, e eu pensei: com certeza não foi por falta de agradecer o que tinha, de desconsiderar o que me tem possibilitado existir… embora muitas vezes não esteja a pensar no que isso é de facto, claro… mas pensei que o que me estava a acontecer não seria por um desconsiderar o que não conheço… dou por mim a não conseguir evitar de tentar perceber porque é que um acto que sinto genuíno não foi recompensado… ao mesmo tempo que tenho a certeza que não há nada para perceber… e quanto mais a convicção de que não há nada para perceber me assola, mais vou vislumbrando que talvez não seja tanto sobre agradecer, mas mais sobre a capacidade de estar agradecida… nesse sentido ela foi reforçada… cada vez mais me apanho agradecida… encontrar-me agradecida pelo momento reconhecido é apanhar-me confiando que não é sobre agradecer alguma coisa para que possa merecer essa coisa… as coisas são muito maiores do que eu para poderem ficar comigo ainda que eu as mereça… estar agradecida é uma coisa incrível que me acontece, vida acontecendo em mim… talvez a própria experiência de que sou maior do que eu para poder ficar comigo, ainda que vá desconfiando de quem sou… o corpo que não é só biológico tecendo-se… criando a possibilidade de existir com a fisicalidade necessária a este universo… acho que é isso que experimento quando me sinto agradecida…

Violência


Escrito no projecto Pedras 2012 - pessoas e lugares - 29/mar/2012
Violência… não é um assunto que me atravessa frequentemente, acho que não me encontro com ela. Não está no meu adn, não a chamo nem sou chamada por ela… mas de vez em quando visita-me o princípio da violência… acho que entendo violência como a consciência da não escuta… a ação de negar por vontade a compreensão na afinação das coisas. Violência é o dique não é a não escuta por si só… é não escutar e saber que não se escuta… é falar com a consciência que o que se está a dizer não é de todo o que se está a dizer… não é não saber o que se está a dizer ou saber o que se está a dizer… violência é o saber que quer saber mais que a sabedoria… é querer pôr ao serviço o que se sabe pelo domínio das forças que me permitiram sabê-lo.
Violência é escravizar a sabedoria manejando o que sei. Posso falar do que for pela violência… posso até falar de paz e usar palavras pacíficas e pacificadoras… posso fazer tudo a partir do lugar da violência menos deixar de ser violento.
O lugar da violência não é o do apartamento das coisas, da falta de ligação. É querer domesticar as ligações que vejo quando me ligo. Violento é querer ser maior do que eu no sentido absoluto, é quando deixo de ver a linha invisível sobre a qual caminha quem sabe que a pulsação está entre ser e querer ser.
Violento é aquele que vê o lento, mas lhe amputa a velocidade da lentidão… a sua indomabilidade que a sustém, lenta.
Deixar-me deformar pela violência é ser atravessada pela força controladora… é encontrar-me a pulsar na constante configuração e reconfiguração… exige-me a continuidade por hiatos, o intervalo dentro da continuidade do intervalo. Tem a elasticidade que tem, assim como a pele só recupera a mesma ferida um certo n.º de vezes, também ela trabalhando o intervalo dentro do próprio intervalo.

Ler pelo meio de ler

Escrito do projecto pedras 2012 - pessoas e lugares - 20/mar/2012

estado de leitura… ler, foi-me ensinado, é uma ação solitária, o leitor e o seu livro, o mundo em volta que desaparece… fala-se muito de viajar dentro de um livro… entendo e reconheço esse estado, é talvez dos mais viciantes que encontro, a cabeça sustentando-se nas linhas, criando mundos levantados a partir de sonhos só por aquelas letras, aquelas frases, uma a seguir às outras… mas também há outro estado de leitura, ou talvez o mesmo se continuar lá, continuando a perguntar que estado é este ao mesmo tempo que leio… aqui o corpo todo disponibiliza-se para ler, não se fecha só no triângulo mãos, cabeça, livro… abre-se na nuca, pescoço, omoplatas, dá a volta sobre si mesmo, e as mãos que seguram o livro já não são as mesmas que seguram os livros… estas outras mãos que seguram o livro permitem-me fisicalizar a leitura… atravessá-la como se percorresse um caminho ou mesmo desbravasse um… estas outras mãos permitem-me mesmo percorrer um caminho enquanto leio, mas também ler um caminho enquanto o percorro, ou caminhar uma leitura enquanto…
encanta-me a capacidade do corpo de ser enquanto, de me fazer relacionar pelo que discorre sem direção nem propósito… indo a lado nenhum senão atrás das pernas… o corpo ensina-me que ando atrás das pernas enquanto acho que vou a algum sítio… o corpo ensina-me que ando atrás das palavras enquanto as quero fazer submeter à lógica do que me está a ser contado… leio enquanto leio, nem à frente nem atrás de ler e aparecem-me palavras-corpo, que ora me atravessam, ora chocam comigo, ora me emprestam o seu lastro para me prolongar nelas… uma pulsação própria… e então às vezes tenho um vislumbre do seu autor, procurando contê-las numa forma, maestrando-as num texto, porque sabe que são indomáveis… querem sempre dizer outras coisas… revelam-se-me relações precárias entre elas… se as volto a ler já não está lá aquele vislumbre de alinhamento que entrevi, e que me parece ser o mesmo que quem as escreveu também viu… está e não está… leio as fachadas dos prédios e as portas, leio com os pés no seu encontro com o chão… leio palavras mas também a tensão entre elas, como as distâncias variáveis dos degraus que subo enquanto isso proporciona tensões específicas nos meus olhos… de ler nunca se termina…

Em casa

Escrito do projecto Pedras 2012 - pessoas e lugares - 06/mar/2012

Tenho tantas coisas escritas e não me parece pertinente que apareçam aqui… antes mais pertinente é dizer que as tenho escritas… que passei dois dias escrevendo, atravessando a muscularidade da mão na sua tensão sobre o papel, sendo corrida dos cafés que fechavam um às sete, o outro às oito, o outro às nove… dilatando um escrever mais arejado, capaz de acolher beijinhos e conversas e outro mais denso que chegava quando chegava (sempre na altura em que podia, ou então porque quando chegava todo o espaço lhe acolhia a vontade)… é inevitável pensar na rota… no saber que ela me imprime no corpo, uma densidade que não tem oposto, que também é dispersão, também é densidade, também é ir atrás dos outros, ou ir à frente, ao lado, ficar um pouco mais para trás, ou esperar mais à frente… a rota tem uma duração, mas não tem uma história… podem ser vários dias no mesmo dia, mas o que eu sinto realmente é que o tempo não passa… não são cinco horas, porque se fossem cinco horas a caminhar o meu corpo estaria como está quando faz caminhadas de cinco horas… o tempo da rota não existe, não se gasta, não se trata de uma história, não passa de A para B, ele não é a linha sustentadora dos acontecimentos, antes escorre como a água num regato, em que não nos apressamos a perguntar onde está a  torneira que possa estancar o jorro… por isso o tempo não passa pelo meu corpo… passa espaço… quando percorro a rota sinto que é o espaço que me atravessa a mim, é o espaço que me percorre e reconfigura lugares de mim mesma que antes carregava comigo sempre da mesma forma. Coisas simples: a forma como o que levo às costas e ao ombro se ajusta à roupa e a como me movo sem carregar coisas, mas antes sendo-as… elas só podem ser porque o espaço me percorre e ampara, com a sua pertinência espacial, a distribuição do meu peso e volume, calibrando as oscilações, acompanhando-me no percorrer de cada passo. cada passo não dura tempo, sustenta-se no espaço. Coisas simples como as distâncias com que me permito fazer coisas na rua, abrir um banco, sentar-me, abrir a mochila, comer um iogurte, guardar o frasco do iogurte, e acolher suja de iogurte, ao mesmo tempo ter o caderno aberto em cima de uma das pernas com a caneta presa lá dentro, e perceber na muscularidade da mão que ela consegue escrever ali, guardando a maciez da escrita, a mesma maciez que só imaginava capaz de surgir num quarto almofadado de pelúcia em cima de uma secretária de mogno, mas quando o espaço te percorre, as distâncias de ti própria que ele acaricia são as mesmas quer estejas na rua ou no quarto, e isso dá-te a maciez familiar de estar em casa… não é o quarto, não é o que se pensa como deveria ser o quarto, é o espaço passando por ti que ajardina as distâncias justas que sustentam a ação, e dás por ti e elas a acontecerem e tu sem argumentos de tempo para dizer: agora não posso que tenho de ir fazer outra coisa… porque essa outra coisa que tens para fazer só vem quando o tempo voltar a ter horas onde pendurares as coisas… mas entretanto… entretanto… estiveste em casa!

Espero a rota ou começo a rota

Escrito do projecto pedras 2012 - pessoas e lugares - 27/fev/2012

Apanho a rota a meio caminho, uma novidade… no fundo quando saio todos os dias na praça do comércio, aquela imensidão de chão branco lembra-me sempre uma praia e quando desço do 15 e o corpo fica assim de frente para o rio, por momentos cola-se a recordação dos verões de dias intermináveis de praia, a areia debaixo dos chinelos e a toalha à volta dos ombros porque de manhã mesmo de manhãzinha ainda fazia frio apesar do sol prometer calor… enfim hoje pude fazer isso… saio com o banco debaixo do braço, há um minuto era mais uma pessoa dentro do 15, a caminho do trabalho, mas agora os nossos caminhos bifurcam-se, eles seguem em passos elegantes por dentro da rua augusta, eu alento os meus e abro o meu banquinho… escolho um lugar na praça e lembro-me da praia outra vez… quando o areal está demasiado vazio onde é o bom lugar para abrir o chapéu de sol? ando um pouco atrás das pernas e deixo que o sítio me escolha a mim… quando é assim tenho mais coisas que contar… especialmente porque não houve nada que me chamasse a atenção… abro o meu livrinho da escrita e começo por entre as linhas da última coisa que tinha escrito… não decidi, começou assim… escrevo coisas do início da escrita o equivalente a esfregar as mãos ou os pés, esticar os braços ou fechar os olhos… olho o telemóvel… a rota deve estar a passar por aqui… Espero a rota ou começo a rota? nada pode estar lá para eu esperar se eu não estiver implicada no seu começo… parece-me evidente para qualquer jardineiro, mas pouco intuitivo para quem o trabalho seja baseado numa linha de montagem… seja ela de pensamento ou de automóveis…

Sr. João (escrito do projecto pedras 2012 - pessoas e lugares) - 19/fev/2012



No centro de dia pairava uma energia esquisita… algum faz de conta de quem não quer dizer o que sente, pois talvez já tenha sentido vezes demais e nunca percebeu realmente o que é que se sente… O Sr. João já não está mais connosco, desapareceu este fim de semana, levado pelas pernas que disseram ao resto do corpo que era tempo de ir embora… uma septicemia… a informação aparece assim de rajada numa só frase, mas vai-se pousando em mim como as folhas do outono. Não sei também o que é que sinto, sinto que é tão justo ir ali porque sim, descascar batatas ou conversar… neste dia não havia batatas… ou então disseram que não havia por sermos só duas e talvez hoje fosse mesmo preciso só conversar como quem corta batatas, assim olhando de lado para com quem falamos afinando a fala com a precisão da mão na batata. Sento-me em frente à Lourdes, a Lourdes não queria falar, queria estar ali, não queria contar histórias porque não se lembrava de nenhuma, só daquelas que não queria contar nem a ela própria… a outra Lourdes sentada ao pé desta Lourdes também não… Diz-me: As Lourdes não têm sorte nenhuma, quem se chama Lourdes não tem sorte nenhuma na vida. trabalhei numa casa onde havia três Lourdes, eu era a terceira. Era uma alfaiataria… os alfaiates são todos doentes dos nervos porque o trabalho permite isso… as minhas duas patroas eram lourdes… Os Fernandos também não têm sorte nenhuma… é por causa do Santo António… ele antes de se chamar António chamava-se Fernando… Fernando Midões, mas depois por causa do inimigo, daqueles que não acreditavam em Deus nem em nada, ele mudou de nome para António… O Santo António tinha um livro, andou no mar e não se molhou, de histórias que ele contava… Santo António era de Lisboa, mas depois foi para Pádua… ficou António de Pádua, mas era Ferndando de Midões… assim nunca mais ninguém o conheceu… A outra Lourdes esteve sempre ali, quando disseram que era para ir almoçar, ela fez o gesto de quem se ia levantar, eu perguntei-lhe: Então já se vai embora? eu estive aqui sempre consigo… eu sei! ela respondeu… e eu sei que ela sabia… O Sr. João ainda está por aqui…
margarida