Thursday, October 27, 2011

como é que eu vim aqui parar? (investigação em corpo-escrita)


Como é que eu vim aqui parar?
Aceitei o convite da minha cama, aberta, escancarada para mim. Os lençóis embrulhados nas mantas lembrando-me da última vez que saí dali à pressa.
Quando chego a casa ela mostra-se sempre disposta a me abraçar, a me aconchegar entre infinitas dobras.
Deito-me e fico a fitar o teto.
Olho-o da distância que ocorria naquele momento e atento no que acontece quando vejo. Experimento mover a cabeça mais para a frente, ponho mais uma almofada na nuca e o teto aparece-me mais desfocado… poderei aproximar-me para ver mais amplo? Poderei afastar-me para ver mais perto? E enquanto digo isto, poderei afectar-me pelo papel que roça na minha mão?
A minha cama é exemplar a acarinhar-me. A melhor sustentação da minha horizontalidade – em mais lado nenhum me sinto tão acompanhada no deitar: talvez seja o compromisso das costelas contra as traves através do colchão, talvez seja o peso específico das mantas – estão lá sempre três, mesmo quando faz calor que atiro para trás ou puxo para a frente adequando-as à minha necessidade de aconchego. Cada uma tem o seu peso e estrutura a ajustar-se às minhas pernas. Uma mais pesada fazendo sentir-se dos lados, outra mais leve roçando só nos pontos de contacto mais pontiagudos – os joelhos e os pés; outra ainda pouco larga que quando se enrola de um lado do corpo se desenrola do outro.
Quando me aproximo para ver mais amplo cada uma destas especificidades gira sobre mim, adere à minha pele numa aproximação específica. As costas desprendem-se do lençol de baixo em tensão pela pressão dos elásticos de lado. Por uns momentos o lençol acompanha o movimento para cima como se estivesse hesitante em deixar-me. Os olhos abrem mais à medida que se aproximam do que não querem deter, e apercebo-me que o movimento de aproximar e afastar está-me completamente incustrado da metáfora de tentar perceber cada coisa individualmente e o todo no seu conjunto. Posso aproximar-me sem que o meu corpo emane a vontade de compreender? Quantas vezes fiz esse caminho dentro de mim para ensinar os músculos que aproximar é perceber? E o peso dos lençóis nas minhas pernas? E a diferença entre o cerrado dos fios de algodão destes lençóis que estão agora na cama e os outros que estão para lavar? De a minha perna não ter pêlos agora e a aderência de cada fio e do espacejamento entre eles me revelar uma continuidade quase perfeita, como quando a língua embrulha iogurte grego ou quando consigo distribuir o peso dos ossos pelos tempos da música. Uma sensação espessa de continuidade, como os meus olhos viam agora o branco do teto fundindo-se na brincadeira de ver uma imagem com cada olho e perceber a altura em que se fundiam outra vez sem me preocupar em ver. Tenho a sensação de poder continuar a ser míope através das lentes. O potencial de foco mesmo ali ao lado só a precisar de um piscar de olhos que escolho não fazer. Olhar e não ver, e não deixar de ver, nem de pensar, nem de ser, nem de pulsar, nem de exercer, nem de continuar. Estou na terra de ninguém, mas infiltrada. Ninguém dá pela minha falta na terra de toada a gente. Ninguém dá pela minha falta na terra de toda a gente porque só ninguém pode perceber a minha falta no sítio onde estou porque só ninguém e eu pode estar na terra de ninguém. Neste momento ainda agora uso o pensamento abstracto. Trato ninguém como um sujeito porque olhei outra vez para a frase que escrevi, e por uma aventura gramatical encontrei um ninguém a quem me dirigir. Será este ninguém menos real que os meus lençóis? Por uns momentos proporcionou-me tanta solicitação como eles, fez-me percorrer uma distância entre mim e esse ninguém para me dirigir a ele, e essa movimentação traz-me a convicção de mim própria, como se me tocasse por dentro.
Pensar é tocar-se por dentro… causa um efeito específico nas fibras.
Essa distância que crio das coisas é a movimentação para trás Abarcar o segmento de percepção. Reconheço o movimento ondulante da coluna vertebral fazendo oscilar a cabeça para trás criando a distância entre mim e as coisas e para a frente tentando compreendê-las, refractando os fotogramas do que sinto em movimento.
Mas quando mapeio o todo afastando a cabeça, o pélvis e a barriga deslizam para a frente. Quando vou ao detalhe o pélvis desliza para trás. E esse durante deslizante do pélvis dá-me a sensação de aproximar-afastar inversa. Nesta ondulação as pernas e os braços estão livres para navegar as linhas do lado, como uma harmonia. Corpo -órgão com fronteiras de continuidade, contendo e sendo contingente.

Friday, June 22, 2007

a performance e a insistência

Ontem assisti a um exercício performativo a partir de um laboratório de improvisação. Fiquei com uma sensação específica no corpo que traduzo com a palavra insistência. Foi muito precioso acompanhar os performers na sua insistência em fazer o que estavam a fazer. Em vê-los na insistência que insiste em seguir sempre a proposta que está ali. E não ceder a nada, nada, nada. Especialmente à protecção. A dizer "agora não sei resolver isto, faço de conta que não vejo, e apanho a vida mais adiante, como se não se tivesse passado nada. Apanho a vida só quando me achar confortável e tiver uma proposta gira que transmita aquilo que eu quero que os outros pensem de mim." Não. Insistir sempre até à absorção total da insistência. É isso que, para mim, dá uma coerência enorme àquilo que somos. "Eu sou" é uma insistência até às últimas consequências. E no entanto é frequente esse potencial incrível ser dissipado em formas frágeis, e a vida torna-se um conjunto de tarefas para proteger essa casca que sabemos sempre que é frágil, mas que acreditamos ser nós. Protegemos essa casca porque se se partisse essa forma, se se corrompesse essa imagem deixaríamos de saber quem somos. Quando nunca soubemos.
É por isso que a performance salva.
Salva porque é capaz de mostrar que a revelação das coisas como elas são está na insistência de as acompanhar desde o primeiro momento. Quando ainda não se sabe o que elas são de facto. A performace salva porque convida o espectador a perceber o princípio alquímico que diz que as coisas começam a ser no momento em que se deseja elas sejam. É isso que eu entendo que faz a performance. Mostra o que está nos bastidores do que chamamos realidade. E se o performer souber insitir nisso, então talvez se crie o espaço de podermos repensar o interior da casca.

Saturday, June 16, 2007

sobre a dança tradicional

A Dança Tradicional, na minha experiência, é sobre dançar com o outro e para o outro. E para fazer isso sinto que preciso de trabalhar, antes de qualquer outra coisa, sobre o estado de completa disponibilidade (tão inteira quanto posso entender o que é estar disponível a cada momento). Porque estar com o outro para um propósito comum, que implica a solicitação dos corpos físicos, não permite uma mera compreensão deste outro. É preciso criar um espaço para o seu acolhimento.
Dançar implica o reconhecimento do momento presente. A dança que se constrói e ao mesmo tempo se alimenta da relação, como é o caso das danças tradicionais, não permite que eu me situe em mim própria no conforto da realidade que construo para lidar com o quotidiano. Se insistir aí, então a dança é mecânica, uma volta é apenas uma rotação ou um salto é só um impulso em que ponho ao mesmo tempo os dois pés fora do chão.
Quando danço as coisas nunca são o que são. Porque quando o meu corpo toca outro, ou age considerando a distância ou proximidade do outro – o que entendo também como uma forma de tocar – torna-se evidente que o mundo não é previsível. Ao contrário abre suspensões que não se organizam em função do tempo ou do espaço absolutos. Para quem dança danças tradicionais esta sensação é inscrita (ou será recuperada?) no corpo, de forma muito mais indelével do que saber o caminho para casa ou reconhecer um rosto familiar. É algo de enraizador da pessoa em si própria. Algo a que inconscientemente se recorre para fazer escolhas, e fazem-se milhares delas num único dia.
A dança tradicional é então, para mim, um instrumento de afinação do único recurso que disponho para saber quem sou: O meu corpo.

Wednesday, May 9, 2007

relva no camões

tempo-massa. Material costurável como o tecido de um vestido vermelho e amarelo e verde e roxo. Tinha um fecho éclair. Os fechos éclair são potencialmente fechados ou abertos ou assim-assim. O tempo onde a minha saia se senta tem um rasgão de dentes metálicos de um fecho-éclair desemesuradamente aberto. Jorra-lhe relva por uma brecha. Mais lá ao fundo há fios de crochet. escorrem? Seguramente que escorre alguma coisa ao mesmo tempo do jorro. A minha saia firme sentada na relva. Um menino diz-me muitas vezes que o iogurte do lanche sabe a flores. Era sempre de baunilha. Só sinto o cheiro do verde já a relva ia gasta. mesmo-mesmo no último dia. Tempo. Relva relâmpago. Costas-relâmpago. Saia relâmpago.
Do buraco do metro vê-se a manta que cobre o largo. Da minha altura vêm-se beatas emaranhadas na raíz das folhas. Parece uma vasta doença de pele. De longe era-me mais verde e menos relva.

Ó Beata do meu vício
Que destes lábios te apartas
Morrer junto a mais beatas
Seja este o sacrifício

Não te espalhes, qual semente
Pelo chão desta cidade
Pois faz dano à liberdade
E não cresce árvore valente

Não te escondas dentro-terra
Pela força dos meus dedos
E neste cinzeiro berra

Mais um cigarro se finda
Durante esta introspecção
Ao lixo beata linda!